POLENIZANDO

  A NATUREZA DO PROBLEMA - Mauro Guimarães[1]

Quando tanto se fala, como hoje em dia, em educação ambiental é porque há um reconhecimento da sociedade de que existem alguns problemas com o meio ambiente, ou melhor, na relação ser humano-natureza. Tradicionalmente a educação é chamada para solucionar os problemas sociais, como sendo a grande redentora da sociedade. Se o problema é com a sexualidade, cria-se a educação sexual; se é com o trânsito, educação para o trânsito; se é com o meio ambiente, educação ambiental, e por aí vai. Mas de que educação, de um modo geral, e em particular ambiental, estamos falando?

Partindo do reconhecimento de que há hoje uma crise ambiental, decorrente de um processo histórico que colocou a sociedade humana e a natureza em lados opostos, peço para pensarmos na caminhada da humanidade e identificarmos, em paralelo a essa caminhada, um processo de individualização da humanidade.

Retrocedendo até aos homens das cavernas, pode-se perceber a postura grupal submetida às forças naturais estabelecidas nas relações ecológicas. Éramos caça e caçadores perfeitamente identificados em uma cadeia alimentar. Éramos uma das partes integradas ao todo natural.

Na outra extremidade desse processo histórico-cultural chegamos às sociedades contemporâneas, à modernidade baseada em uma visão liberal de mundo (indivíduo como célula mater da sociedade), em que a individualização chega ao extremo do individualismo, do egoísmo, do cada um por si.

Nesse contexto, os seres humanos sentem-se cada vez mais partes isoladas do todo e rompem, entre outros, o elo de ligação com a natureza. Do sentimento de não pertencimento à natureza para o de dominação e exploração foi um pequeno passo das sociedades humanas.

O que prevalece hoje são os interesses individuais/particulares sobre as necessidades comuns, coletivas, do conjunto. Essa prevalência justifica-se por essa postura individualista e antropocêntrica - quando a humanidade se vê como o centro e tudo que está ao seu redor existe para atender aos seus interesses. Essas posturas, somadas à competição exacerbada entre indivíduos, classes sociais e nações, à acumulação privada de um bem público que é o meio ambiente e à concentração da riqueza, entre outras, intensificou tremendamente a exploração do meio ambiente e o distanciamento entre os seres humanos dessa sociedade urbano-industrial e a natureza, o que produz a degradação de ambos.

Meio ambiente é conjunto, é sistêmico, precisa ser percebido em sua realidade complexa, na sua totalidade.

A exploração da natureza como se fosse um recurso inesgotável, vista de forma fragmentada, sem a preocupação e o respeito com as relações de equilíbrio ecológico e sua capacidade de suporte, que seriam melhor percebidas a partir de uma visão de totalidade, resultaram nos graves problemas ambientais da atualidade.

É aqui que a educação ambiental vem sendo chamada para "resolver" os problemas da nossa sociedade urbano-industrial. Mas qual a "natureza" desses problemas?

Ao nos remetermos, por exemplo, às realidades rurais, talvez possamos pensar que, pela maior presença de elementos naturais nesse meio, os problemas ambientais são aqueles distantes, como o desmatamento da Amazônia, ou os globais, como o buraco na camada de ozônio ou efeito estufa. Mas ao nos aproximarmos dessas realidades locais, percebemos que ocorrem também vários problemas socioambientais, como agrotóxico, erosão, desmatamento, contaminação das águas, concentração de terras, pobreza etc. No entanto, esses problemas localizados, mesmo em pequenas comunidades, acontecem em todo o mundo.

Os problemas ambientais locais e globais se interrelacionam, não são aspectos isolados de cada realidade. Portanto, a "natureza" do problema está no atual modelo de sociedade, individualista, consumista, concentrador de riqueza, que gera destruição, antagônico às características de uma natureza que é coletiva, que recicla, que gera a vida.

Esse é um dos problemas centrais em que a educação ambiental deve se debruçar: entender as estruturas dessa sociedade, a sua dinâmica intermediada pelas relações desiguais de poder, as suas motivações dinamizadas pelo privilégio aos interesses particulares. É desvelar a origem dos problemas ambientais e não apenas nos restringirmos às suas conseqüências.

Qual proposta de educação dará conta disso? Será uma educação tradicional que acredita que o comportamento da sociedade é resultado da soma dos comportamentos de cada indivíduo? Que o professor transmite os conhecimentos corretos e que disso resultará na mudança de comportamento dos alunos, solucionando assim os problemas? Que acredita que somando esses comportamentos "corretos" teremos uma nova sociedade? Será que dessa forma superaremos os problemas ambientais? Basta transmitir o conhecimento certo aos nossos alunos que eles terão consciência ecológica?

Essa educação tradicional é eminentemente teórica, pelo papel do professor como transmissor de conhecimentos, e é passiva, pelo aluno ser o receptor desse conhecimento. Reforça valores individualistas quando acredita que o indivíduo é que forma a sociedade, quando não valoriza as relações sociais entre esses indivíduos. É presa ao conteúdo dos livros sem contextualizar em uma realidade socioambiental, podendo, portanto, ficar restrita à sala de aula, não estimulando a interação desses indivíduos em um processo de intervenção na realidade social. É uma educação "bancária", conservadora, pouco apta a mudanças sociais, conforme denunciava o mestre Paulo Freire.

A proposta que nos movimenta é de uma educação crítica, que compreende a sociedade como um sistema, em que cada uma de suas partes (indivíduos) influencia o todo (sociedade), mas ao mesmo tempo a sociedade, os padrões sociais, influenciam os indivíduos. Portanto, para haver mudanças significativas não bastam apenas mudanças individuais (partes), mas necessita-se também mudanças recíprocas na sociedade (todo).

Nessa relação (dialética) entre indivíduo e sociedade é que se constrói o processo de uma educação política, que forma indivíduos como atores (sujeitos) sociais, aptos a atuarem coletivamente no processo de transformações sociais em busca de uma nova sociedade ambientalmente sustentável. Nesse processo eles se transformam também, se educam, se conscientizam. Indivíduos que se transformam atuando no processo de transformações sociais.

Para essa educação ambiental que acreditamos crítica, os problemas ambientais não são atividades fins, conforme demonstra Layrargues (1999), em que a solução se daria por mudanças comportamentais de cada indivíduo, como normalmente se trata, por exemplo, a questão do lixo no chão. Para essa proposta crítica, os problemas ambientais são temas geradores que problematizam a realidade para compreendê-la, instrumentalizando para uma ação crítica de sujeitos em processo de conscientização. Como no exemplo anterior, seria questionar o porque essa sociedade produz tanto lixo.

Portanto, de forma contrária à educação tradicional, essa é uma educação voltada para uma ação-reflexiva (teoria e prática - práxis), coletiva, em que seu conteúdo está para além dos livros, está na realidade socioambiental, ultrapassando os muros das escolas. É uma educação política voltada para a transformação da sociedade. Essa é, assim como nos disse Paulo Freire, uma Pedagogia da Esperança, capaz de construir o inédito viável dos que acreditam na possibilidade de um mundo melhor.



[1] Doutor em Ciências Sociais (CPDA/UFRRJ), Mestre em Educação (UFF), Especialista em Ciências Ambientais (UFRRJ) e Graduado em Geografia (UFRJ).


Bibliografia

GADOTTI, Moacir. Pedagogia da Terra. São Paulo: Peirópolis, 2000.

GUIMARÃES, Mauro. Educação Ambiental: no consenso um embate? Campinas: Papirus, 2000.
___________. Educação Ambiental - Temas em Meio Ambiente. D. Caxias: Ed. Unigranrio, 2000.

LAYRARGUES, Philippe P. A resolução de problemas ambientais locais deve ser um tema-gerador ou a atividade-fim da educação Ambiental? In: REIGOTA, M. Verde cotidiano: meio ambiente em discussão. Rio de Janeiro: DP&A, 1999.






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