POLENIZANDO

  VERSOS E REVERSOS DA DIVERSIDADE - Michèle Sato & Luiz Augusto Passos

SATO, Michèle; PASSOS, Luiz A. Versos e reversos da diversidade. In: SIMPÓSIO SUL BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL & II SIMPÓSIO GAÚCHO DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL, Anais... (Conferência de abertura). Erechim: URI, 2002, p. 115-126.

VERSOS E REVERSOS DA DIVERSIDADE

Michèle Sato
Luiz Augusto Passos

[PRELÚDIO: As cortinas se abrem, as luzes da platéia se apagam e apenas um feixe de luz penetra no palco. Na emoção da voz e dos movimentos, o elenco, trêmulo como uma primeira vez, então contracena em um turbilhão de sentidos...]

Iniciar nosso texto pensando na platéia que nos lerá, certamente causa incertezas – um certo medo pela avaliação de nossas idéias por pessoas seletas, que buscam uma Educação Ambiental (EA) diferente. Não é um público passivo, pela própria natureza crítica da EA, mas substancialmente pessoas emancipadas – arriscaríamos a dizer que é uma vanguarda da EA.

O compromisso que firmamos, perante o mundo e a este século, todavia, nos convida para transportar as inseguranças e admitir as possíveis diferenças emanadas - entre choques de verdades e opiniões múltiplas de concordância ou divergência. Corremos o risco de também não estarmos presentes nas dúvidas posteriores ou no caminhar solitário das dissertações ou teses. De fato, tanto o estruturalismo como o pós-estruturalismo deixam as lacunas das emoções e do diálogo face-a-face. Uma palavra mal interpretada, ou pronunciada, pode gerar rabiscos confusos e deixar os horizontes sem cor. Então buscamos encontrar palavras certas para expor as idéias e, com cuidado, deixar emanar nossos próprios sentidos, para que o palco se ilumine. Enquanto sujeitos da concreção histórica, estamos conscientes de que o elenco pode ficar sem cor, mas o roteiro é indispensável. Não numa perspectiva do caminho unívoco, senão vias múltiplas que tecem diferentes cores, olhares, vozes e imagens.

Na tessitura desta diversidade, cremos que o maior desafio da EA se ajusta na busca da alteridade - no respeito aos diferentes. É preciso desejar a transformação social através da participação de idéias plurais contidas na essência reflexiva para uma Terra com mais responsabilidade ecológica. Se for realmente verdade que desejamos um mundo melhor, com desejos arrepiando peles, gestos, falas e atitudes despertando paixões e até permitir deixar arriscar os fôlegos suspensos, também é igualmente verdade que em nós repousa o maior trabalho. Somos nós que temos a árdua tarefa de realizar, inescrupulosamente, nossos sonhos e fantasias.

Para muitos, a EA traz o paraíso da "Terra prometida" – é uma verdadeira vendedora de sonhos. Convictos da transformação isolada, muitos aprisionam a EA como única fonte capaz de saciar a sede. Infelizmente, apenas uma parcela desta promessa pode ser realizada, e a maioria dela é tão somente ilusão. Entretanto, é precisamente esta parte maior - que fala ao imaginário das pessoas e está ligado aos ideários e aspirações políticas - que a torna extremamente atrativa e eficaz. Freqüentemente, a força das utopias é diretamente proporcional à frustração.

O dramático é que as pessoas se apegam aos sonhos não porque elas se encarnam na realidade circundante, mas porque eles são teimosamente negados de poder ser sonhados!
(Passos, 1995: 232)

Enfrentamos aqui um imenso desafio: manter as diferenças num mundo globalizado. Relacionar, dialógica e dialeticamente, o eu-outro-mundo (Merleau-Ponty, 1989). No acelerado movimento da homogenização e do grito neoliberal que coloca a figura do poder como forma central (que vença o melhor!), como poderemos aceitar o desafio e fazer emergir a tragédia do singular no monoculturalismo enfático? Ou, na época em que se tanto fala em interdisciplinaridade e transversalidade, enfrentar o dilema tardio de Platão em ser uno e múltiplo, dialética e simultaneamente...

No canto do palco que atuamos neste instante, encontramos o último número da revista "Isto é" , que flama o sensacionalismo das vendas midiáticas na capa: "meio ambiente – o capital verde". Nas páginas internas aparta-se um capitalismo maquiado, com novas roupagens, onde o consumidor é convidado a se deliciar com as novas modas ecológicas. Embevecida pelo figurino fashion, a natureza é vista como fonte de renda e empregos, onde "preservá-la virou um trunfo no mundo dos negócios" (p. 95). Sublinhando a ISO 14.000 como uma revolução neste capital verde, a matéria ainda sustenta o símbolo emblemático do sombrio mercado natural até no gênero humano: "estamos apenas começando o treinamento dos recursos humanos da rede" (p. 96, grifo nosso), finaliza a matéria da revista.

A política da ISO, que significa "International Standartisation Organisation", possui uma conotação ecológica e por isso mesmo, é muito aceita pelos educadores e educadoras ambientais do mundo todo. Todavia, ela vem uniformizar as ações para melhorar o "controle" ambiental. Por ironia, a partícula grega "iso", expressa a monotonia sistêmica pela estética tipificada (Sato & Passos, 2002). O novo milênio anuncia um mercado extenso de produtos naturais e um mosaico de conflitos e alianças, borrões e limpidez, conservação e agressão ambiental. É neste cenário que surge o discurso do "desenvolvimento sustentável" - outra mazela que vem enganar a comunidade ambientalista pelo seu jargão primoroso deste século (Sato, Tamaio; Medeiros, 2002).

Todavia, nenhuma coalizão ou ódio das multidões fará calar a virtude em identificar que ele ainda representa a velha ordem econômica, pasteurizado em seus conceitos que exclui a diversidade e a participação democrática na construção de sociedades mais responsáveis.

"O mundo não é uma mercadoria". Foi a conscientização da necessidade, não apenas de uma resposta mundial a um problema mundial, mas também de uma força de pressão e de proposta em escala planetária. Infelizmente as instâncias internacionais que criavam uma solidariedade planetária dos trabalhadores perderam força; as aspirações que as nutriam ressuscitaram através dos esboços dispersos, mas significativos, que, em diversos lugares, se configuram para que surja uma sociedade civil cuja formação seria uma etapa importante no aparecimento da sociedade-mundo. O que falta para que uma sociedade-mundo possa se constituir não como acabamento planetário de um império hegemônico, mas com base numa confederação civilizadora, não é um programa ou um projeto, mas os princípios que permitiriam que fosse aberto um caminho.
(Morin, 2002)

Por outro lado, cabe questionar a ausência de opções econômicas que poderiam eliminar posturas de exploração destrutivas num mundo tão "civilizadamente industrializado". Em outras palavras, ainda está longe um tipo de economia que possa favorecer as populações utilizando-se de seus próprios conhecimentos ou saberes enraizados em suas vivências locais. Nem a era dos "produtos naturais" garantiria a preservação da biodiversidade, já que o capitalismo apenas mudaria de nome para "consumismo verde":

Educação para consumidores, aliada à vigilância das ONGs, podem ser importantes na produção de um novo código de ética (...). As reservas de todo planeta estão exaurindo pelo atual nível de consumo. Imagine-se o que acontecerá, considerando-se o novo nível de demanda! Na euforia do que tem sido rotulado como 'vitórias', o capitalismo ocidental será posto a teste ecológico e social.
(Posey, 1994: 349).

Assim, nossa luta vai além dos nossos próprios sentidos, desde que não há um de nós que não sonhemos em projetar um indivíduo para si e para a humanidade. Ou como diria Sartre (1978), "não há dos nossos atos um sequer que, ao criar o homem que desejamos ser, não crie ao mesmo tempo uma imagem do homem como julgamos que deve ser". A perda da percepção, da construção e da sustentação da diferença cultural pela forma como ela vem sendo trabalhada nos programas de EA do mundo inteiro vem somente reforçar o etnocentrismo dos grupos dominantes. Nesta dimensão, constrói-se hegemonias com padrões de consenso político, linearizam-se cartesianamente os sinais de vida, preconiza-se o fim da história, aponta-se para uma ética de interesses duvidosos, através de padrões binários de oposições e sistemas fechados, como uma caixa preta com entradas e saídas de rigor, controle e verdades universais.

Os idiotas surgem neste cenário, sob pretenso conhecimento do mundo, na observação comprovada de transparência dos fenômenos, ou na neutralidade das ciências e da educação. Fazem-se máquinas ativas, nunca pensantes, porque a idéia aniquila o processo controlador. Melhor um parâmetro generalista do que um ato fenomenológico capaz de vivificar as identidades das múltiplas existências. Os idiotas pegam o trem rumo ao poder. A máquina apita e acelera, mas os trilhos obedecem à linha reta, determina os destinos linearmente, sem atender às curvas dos rios, engenhosamente feitas pela serpente gigante que as almas dos índios Bororos acreditam .

Guimarães Rosa (1963), em sua grande obra "Grande sertões: veredas", nos traz a figura quase mitológica do Riobaldo. Sob a influência de Goethe, Riobaldo, como Fausto, acredita em deus e diabo. Enquanto protagonista e narrador, suas histórias são manhosas e tergiversadoras, mas sua travessia é intensa nos sertões. A grande contribuição desta obra também se verifica na criatividade da significação da palavra "travessia" – amiúde, encapsula metaforicamente "o sentido existencial humano do processo de mudança que os percalços de uma vida implicam" (Galvão, 2001: 264). Mas antes que as cortinas se fechem para o segundo ato, seria oportuno lembrar que a tragédia do perigo em denunciar as limitações da EA encontra ressonâncias na fábula de fênix, que renasce das próprias cinzas. A necessidade da vida deve também aceitar a morte - seja pela idade biológica, seja pela forma conceitual. "É preciso deixar o espírito relampaguear na mediocridade" (Gómez-Correa, 1999: 32) para dar vazão às novas esperanças.

[2º ATO: superado o momento de estranheza com o palco, o elenco inicia um passeio etimológico nas palavras e arrisca a participação da platéia para uma reflexão sobre as diferenças...]

Cabe à EA, a tarefa de explanar algumas dimensões do que consiste a chamada diversidade, não apenas biológica, mas também a cultural. Consideramos, embora não seja aqui por nós desenvolvido, algumas iniciativas em prol da interculturalidade que vem no bojo de algumas tendências pedagógicas antiestruturalistas e pós-modernas , que resgatam um conceito do humano dinâmico, criativo e vivo, e que forçosamente abalam certezas. O conhecimento falso é pior que o não conhecimento.

A etimologia nietzscheana mostra que não existe um sentido original da palavra, pois estas não passam de interpretações, mesmo antes de serem signos. As palavras sempre foram inventadas pelas classes dominantes e, portanto, não indicam um significado, mas impõem uma interpretação (Nietzsche, 1996). Assim, no espírito da etimologia do termo, sugerimos que por trás do conceito teríamos uma tripartição de idéias: di/difere/ência. a) Di - consistiria de uma dissociação; b) Difere – fenômeno no qual o pretenso ser inteiriço e monolítico, subitamente, diferenciar-se-ia de si, inovando sua apresentação e seu significado; e c) Ência – sofrida a bipartição, provocada por uma ruptura que implicaria uma fissão-do-ser (ente), revelar-se-ia uma identidade nova, antes, indiferenciada e submersa.

O ente é um ser em movimento. Sofre no processo de sua expressão e confronto, fragmentações que derivam de sua trajetória de sempre estar tensionado - por fora - num projeto. Escrevemos, em algum lugar, (Passos & Sato, 2002: 131) sobre tal trajetória quando estabelecemos um currículo fenomenológico contra as generalizações abstratas:

"Conceber pois o currículo como trajetória significa circunscrevê-lo no conflitivo, no aberto, na procura, no imponderável, na aventura. Na medida em que seu caráter se circunscreve na "pro-jeção", ele implica uma tensão entre o que possa vir a ser por sobre o que já-é e o que ainda-não-é, posto pelo desejo de alguém implica novidade, perspectivação, desafio para o inédito.

A diferença – imprevisível como o palco inicial, surgiria no seu próprio ser ou comparativamente com outro, onde até então, se presumiria uma continuidade identitária: uma mesmidade essencial. Analogicamente poderia servir para nós de compreensão a tensão existente entre projeto e processo como causador desta fenda.

O que implica a experiência da diferença cultural para cada um de nós? A diferença é a expressão exterior, fato social, que comporta e qualifica um artefato do imaginário, construído num mecanismo lingüístico, semântico e semiótico em que as idéias de identidades e não-identidades, por comparação, sofrem um curto-circuito. Buscando outras palavras, há um pressuposto de continuidade e descontinuidade onipresentes. Pressupõe-se a existência de um eixo imaginário, contínuo, linear, no qual as identidades deslocar-se-iam, mas em sentidos contrários. Movimentar-se-iam confrontando-se, incluindo-se e excluindo-se em partes diferentes, na mesma coisa. O trem continua, ensurdecendo a rota e eliminando as curvas...

Podemos padronizar que diferente é aquilo que é incongruente ao modelo geral. Ora, o pressuposto necessário para qualquer comparação é a existência de uma equivalência. Comparando-se coisas de natureza diferenciada, atribuir-se-ia valores negativos em relação às discrepâncias do modelo de referência. Este modelo de referência, entre nós, será sempre o da cultura ocidental. Desta forma transformar-se-iam diferenças "naturais" em estratégia de desigualdade. "To be or not to be: this is the question", nos diria o mestre Willian Shakespeare.

Veremos pois que o pressuposto inicial é o que o diferente - é um "acidente de percurso" numa normalidade comparável, idêntica e similar. E, neste sentido que existe uma norma recorrente (um normal), o da plena congruência do ser humano em aspectos considerados primários e essenciais. Poder-se-ia, a partir daí, seguir um caminho perigoso: de que os aspectos de diversidade se devessem a fatores "acidentais", folclóricos como se fossem adereços do ser. A identidade e a igualdade consistiriam na equivalência genérica e abstrata do ser humano e no sucesso da socialização e da educação. Eis a vitória da modernidade! Rei morto – rei posto!

Todo ato perceptivo da diferença implica numa afirmação-e-negação: estabelece assim uma identidade contrastiva, valorativa de fundo. Esta identidade contrastiva tem duas referências ou dois movimentos. O primeiro – negativamente: eu não sou um deles. O segundo, afirmativamente: eu sou um outro face a eles. Essas dimensões de afirmação e negação não se constituem em momentos temporais isolados e em seqüência, mas são aspectos simultâneos da consciência: sou essencialmente uno e múltiplo, idêntico e diverso, universal e singular. Assumimos, pois, nossas ambigüidades e contradições!.

O Outro não deve ser nunca alguém a ser descrito ou explicado a partir de um ponto de referência externo, seja o de um outro grupo, seja o da "ciência".
(Silva, 1996: 150)

Assim, todo ser humano representa um movimento de diferença. E essa diferença se expressa e se visibiliza no campo da cultura. A cultura é um campo da fabricação humana muito particular. Festejamos, comemos, vestimos, bailamos, acreditamos, indignamos e morremos... Todas as variações contidas nestes movimentos carregam símbolos próprios e se constituem diversas culturas. Num recorte antropológico, sem contudo querer dar vazão ao antropocentrismo, Geertz (1989) nos pediria para refletir sobre meras atitudes triviais como comer, beber, excretar urina e fezes, copular, sentir dor e parir, entre outros tantos – como momentos tão próximos aos dos animais que carecem de rituais singulares que os tirem da sua crueza "natural".

Embora sejamos parte deste gênero humano (múltiplo), carregamos marcas indeléveis de significados e esperanças que se redefinem, redizem e ressignificam segundo o contexto e referências, à luz de nossas cosmogonias, crenças e mitos (uno). Rigorosamente, não existe a cultura no singular, senão um vasto e complexo campo das diversas culturas. Geertz (1991), buscando em Max Weber, assim define a cultura:
O homem é um animal suspenso por teias de significação por ele próprio tecidas, vejo a cultura como sendo essas teias, e a análise dela não como uma ciência experimental em busca de leis, mas sim uma ciência interpretativa em busca de significados" .

A metáfora emprestada de Weber tem inspiração na aranha, que tece de seu próprio corpo a rede que a sustentará, protegerá e alimentará. Aquilo que antes saíra de si mesmo, está agora externalizado e posto como necessidade de sua sobrevivência. Assim, a cultura humana constituída por nós, constituir- nos-á. Será nossa referência, nosso sistema de classificações, de valoração e referência imprescindíveis rumo ao sentido. E para validar tais incorporações, garantindo um complexo sistema comunicacional de inteligência, entra em cena, o constitutivo de nosso próprio rosto e identidade: a intersubjetividade da linguagem.

A intersubjetividade é interação entre diferentes sujeitos, que constitui o sentido cultural da experiência humana. Relaciona-se à possibilidade de comunicação, de que o sentido da experiência de um indivíduo, como sujeito, seja compartilhado por outros indivíduos.
(Souza, 2001: 32)

Trata-se, dirá Geertz (1991), de salvar o 'dito' pondo-o numa forma pesquisável, tentando compreender os infinitos sentidos que ele abriga. Tentando, ao mesmo tempo, circunscrever o micro - o dado inédito -, no conjunto maior onde ele se articula. Compreender, dialeticamente, o significado que ele adquire na totalidade da teia onde se encontra o umbilicado. Contudo, como todo signo humano é polissêmico, abrange múltiplas possibilidades de sentidos, todos eles inesgotáveis e jamais completamente congruentes ao sentido original. É também neste sentido que Geertz entende o antropólogo ou o educador como co-autores. Quem interpreta, recria e ressignifica. Não há pesquisadores que, frentes aos mesmos dados, interpretarão e escreverão a mesma coisa. Afinal, cultura é um texto! Com erros, rasuras, multiplicidades e leituras, possibilitando ser reconstituído em sentidos inimagináveis.

Fazer etnografia é como tentar ler - no sentido de construir uma leitura de um - manuscrito estranho, com elipses, tendenciosos, incoerentes, desbotado, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado. (Geertz, 1987:20 – grifo nosso)

Uma interpretação não é porém uma arbitrariedade vazia. Em uma pesquisa, transforma-se em uma busca da convivência dia-a-dia, na intenção de querer compreender o viés do olhar do outro, e sobretudo emprestando o ombro do outro para ver de esgueira alguns significados que ele, o nativo, ali pôs. A fenomenologia dá ênfase à vida cotidiana, pelo retorno àquilo que ficou esquecido, encoberto, pela familiaridade, pela intencionalidade (Souza, 2001). As múltiplas leituras que se fizerem de um signo, de uma gestualidade, de uma fala, de um símbolo pelo pesquisador jamais será uma leitura de primeira mão, e introduzirá fatalmente sentidos pessoais e semânticas próprias. É por isso que a alteridade implica nunca entrarmos de botas no santuário da cultura alheia – ela não é uma coisa, cuja externalidade capturamos. Os sentidos se estão no dito, não se atém a ele. Radicalmente, nem nós mesmos nos pertencemos a nós! Qualquer conhecimento de uma diversidade pressupõe a construção de uma ponte comum entre eu e o outro – em outras palavras, representa um campo semântico compartilhado, onde alguns significados comuns nos intercomunicam e nos aproximam.

[À GUISA DO EPÍLOGO: Não há mais sombras, nem elenco e nem platéia. O teatro se ilumina e os aplausos se curvam à diversidade – somos todos sujeitos históricos: somos Riobaldo – narrador e protagonista de sonhos!]

Esta aproximação dos espaços em parcelas luminosas múltiplas cria um novo palco para o teatro dos olhares e correntes que se entrelaçam e se despedem: se por um lado o pragmatismo teve seu auge nas décadas passadas, através das denúncias de uma determinada era; por outro lado, há uma platéia que não mais suporta ser testemunha funcional e grita por um ambientalismo mais crítico.

Certamente subir em árvores para evitar o seu corte teria seu significado eloqüente na demarcação dos diferentes. Mas a Terra cresceu e hoje a anormalidade é parcialmente previsível como fenômeno geral. Tem, por isso, pautas de enquadramento para os transgressores, da mesma forma que são abertos espaços para a transgressão, temporária, de forma que, a exceção constitua a afirmação da regra (Berger, 1995). No exemplo da árvore, estas correntes são claramente diferenciadas pela fenomenologia: subir na árvore pode ser um método coerente do ativismo ecológico, mas mais do que simples lógica, necessitamos de uma atitude. Uma atitude crítica se distancia do método, na medida que requer tomada de decisão para a compreensão do saber. Sob a ótica epistemológica, necessitamos ira além da ação, buscando uma relação entre o fenômeno e a essência, o todo e as partes, o objeto e o contexto (Japiassu & Marcondes, 1996). O pensamento emancipador ultrapassa meras convenções e históricos de marcos internacionais repetitivos. Para além de Estocolmo ou Tbilise, existe uma outra morada. Augusto Boal diria que os oprimidos precisam ser constitutivos de uma corrente geral de transgressões, criações, reinvenções e mudanças das lógicas pragmáticas.

Eu peço: cantemos com a nossa voz, bailemos com o nosso corpo, digamos a nossa palavra. Essa deve ser a arte dos humanistas, daqueles que negam a robotização, afirmam as diferenças e delas acham a unidade - somos mulheres, somos homens; temos a pele negra e temos a pele branca; temos olhos azuis e olhos castanhos, mas a nossa esperança é verde!

A globalização deseja o monólogo: para combatê-la, o diálogo é necessário. Sabemos que o ato de transformar é também transformador. Sabemos que para resistir não basta dizer não. Desejar é preciso! É preciso sonhar. Não o sonho tecnocolorido da TV, que substitui a dura realidade em preto e branco, mas o sonho que prepara uma nova realidade. Uma nova realidade onde se busca unificar a humanidade, mas nunca uniformizar os seres humanos.
(Boal, 2000: A3)

Nada jamais conseguirá fazer com que a EA de desvie da aventura que escolheu. Não foi, todavia, por ausência de dificuldades práticas e teóricas, se é que podemos segrega-las assim. O movimento ecológico foi definido por sociedades diferentes, grupos diferenciados com instrumentos capazes de tocar músicas muito distintas em sistemas e compassos muito específicos. Não é esta, pelo menos, a lógica que sustenta o parelho do pragmatismo. Porque a história não se movimenta por lógicas, mas por interesses. E as correlações de forças são mutáveis.

Assim como no surreaslimo, a EA necessita de menos opacidade em assumir limites, onde embora consciente das possíveis falhas, nunca se dá por vencida. Afinal, nenhuma obra de arte se sustentaria de pé frente à selvageria transformadora que emana das camadas mais profundas dos educadores e das educadoras ambientais revolucionários.

Uma atitude (invenção e reinvenção) supõe que o caminho metodológico mude, saindo do "treinamento do capital humano" e da compulsoriedade, para alianças participativas, éticas, estéticas, democráticas – em que se desenvolvem em sensibilidade para o acolhimento da diferença. É a busca de uma causa, uma história, uma origem que a explique.

O semelhante é portador de um mistério. Carrega uma razão que ele anuncia, torna pública e evidente, mas que de certa forma também a esconde. E esta semelhança sempre perturba: ele pode semear a confusão, espalhar a dúvida, induzir ao engano as pessoas que o confundem com aquele ou aquilo que ele, efetivamente, não é.

A educação escolarizada e pública sintetiza, de certa forma, as idéias e os ideais da modernidade e do iluminismo. Ela corporifica as idéias de progresso constante através da razão e da ciência, da crença nas potencialidades do desenvolvimento de um sujeito autônomo e livre, de universalismo, de emancipação e de libertação. (...) A escola pública se confunde, assim com o próprio projeto da modernidade. É a instituição moderna por excelência.
(Silva: 1996:251)

Porque somos todos diversos há uma trilha para construir pontes de comunicação de nossas solidões. Há um espaço para construir a tolerância, a transcendência, o acolhimento, a gratuidade. Há um espaço a ser desconstruído de institucionalidades pré-moldadas, recusando-nos às velhas pautas. Se a EA é o campo da liberdade, e freqüentemente, da persuasão, a única que faz sentido é aquela que constrói a felicidade pessoal e coletiva, como implicadamente interdependentes. Sem medo de ser felizes, queremos dizer não às massas de manobra de padrões "tucanescos" ou infantilidades de "garotinhos". Vencer o câncer social é também acreditar na essência horizontal das redes de EA, que possibilitam a estrutura de validação e da construção da solidariedade.

Porque todos somos diversos, é nesse lugar da diversidade que nos cabe conjugar sonhos plurais. Porque diversos, podemos congregar nossa singularidade no plural e no múltiplo, tirando-nos do sofrimento de nossas solidões e (in)diferenças, para sentirmos a sede solidária e insaciável da comunhão por um projeto de todos. O verdadeiro educador ambiental é mágico, é como um pajé, aquele que pelo pensamento e pela palavra, mas também pela paixão, gestos e sentidos, tenta agir criticamente sobre o mundo. Busca as visões da tribo que se propagam entre o sacro e o profano – e as revelações interpõem um abismo entre os pragmáticos e os críticos. Mas se o rito, mito e o grito permitirem, da água encantada ressuscita a dança e o direito de esculpir a EA sem estabelecer o veredicto do que é avançado ou do que é primitivo. Não há hiatos – somos um continuum.

[A CORTINA NÃO SE FECHA – Octávio Paz recomendaria: que os panfletos circulem em sonhos desesperados da poesia para concretizar-se na história da vida quotidiana de cada sujeito ecológico...]

ELENCO EPISTÊMICO
BERGER, Peter & LUCKMANN, Thomas. A construção social a realidade. 13ª Ed., Petrópolis: Vozes, 1995.
BOAL, Augusto. "Teatro como arte marcial". In Folha de S. Paulo - Opinião, 29/12/00, A3.
GALVÃO, Walnice. "Riobaldo, o homem das metamorfoses". In MOTA, L.; ABDALA, B. (Orgs.) Personae: grandes personagens da literatura brasileira. São Paulo: SENAC, 2001, p. 237-264.
GEERTZ , Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1989.
GEERTZ, Clifford. Thick Description: Toward an Interpretative Theory of Culture. In C. Geertz, 1973,
pp 87-125 apud C. Geertz, C. Negara. O Estado teatro no século XIX, Lisboa: Dífel, 1991, p.VII.
GÓMEZ-CORREA, Enrique. "O entusiasmo". In PONGE, R. (Org.) Surrealismo e novo mundo. Porto Alegra, Ed. Universidade, UFRGS, 1999, p. 31-35.
JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, D. (Eds.) Dicionário básico de filosofia. Rio de Janeiro: Zahar, 1996. MENCONI, Darlene. "De volta para o futuro". In Isto É, 17/07/02, n. 1711, p. 88-96.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Em toda e em nenhuma parte. São Paulo: Nova Cultural, 1989, p. 157-185 [Os Pensadores].
MORIN, Edgar. "Por uma globalização plural". In Folha de S. Paulo, 31/03/02 (Especial para o "Le Monde").
NIETZSCHE, Friedrich. "Humano, demasiado humano - um livro para espíritos livres". In NIETZSCHE, F. Obras Incompletas. São Paulo: Abril Cultural [Os Pensadores], 1996, p.61-133.
PASSOS, Luiz A. O Imaginário do tempo nos processos educacionais de Aguaçu. Revista de Educação, Cuiabá, v.4, n.6, 1995, 280-300.
PASSOS, Luiz A; SATO, Michèle. "Educação ambiental : o currículo nas sendas da fenomenologia merleaupontyana". In SAUVÉ, L. ORELLANA, I. SATO, M. (Dir), Sujets choisis en éducation relative à l'environnement. D'une Amérique à l'autre. Les Publications ERE-UQAM: Université du Québec à Montreal, Tome I: 2002, p. 129-135.
POSEY, Darrell. "Será que o 'consumismo verde' vai salvar a Amazônia e seus habitantes?" In D'INCAO, M. A; SILVEIRA, I. M. (Orgs.) A Amazônia e a crise da modernização. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1994, p. 345 -360.
SARTRE, Jean Paul. O Existencialismo é um humanismo. São Paulo: Abril Cultural, 1978. [Os pensadores].
SATO, Michèle; PASSOS, Luiz A. "Biorregionalismo: identidade histórica e caminhos para a cidadania". In LOUREIRO, C.F.B.; LAYARGUES, P. & CASTRO, R.S. (Orgs.) Educação ambiental: repensando o espaço da cidadania. São Paulo: Cortez, 2002, p. 221-252.
SATO, Michèle; TAMAIO, Irineu; MEDEIROS, Heitor. Reflexos das cores amazônicas no mosaico da educação ambiental. Brasília: WWF-Brasil, 2002.
SILVA, Tadeu T. Identidades terminais. As transformações na política da pedagogia e na pedagogia da política. Petrópolis: Vozes, 1996.
SOUZA, Osmar. "Abordagens fenomenológico-hermenêuticas em pesquisas educacionais". In Contrapontos. Itajaí, ano 1, n. 1, 2001, 31-38.


1 Professora e pesquisadora da UMFT e da UFSCar (michele@cpd.ufmt.br).
2 Professor e pesquisador da UFMT (passos@cpd.ufmt.br).
3 MENCONI, Darlene. "De volta para o futuro". In Isto É, 17/07/02, n. 1711, p.88-96.
4 MORIN, Edgar "Por uma globalização plural". In Folha de S. Paulo, 31/03/02 (Especial para o "Le Monde").
5 Idiotas, no sentido etimológico de termo: aquele incapaz de compreender porque é um estranho.
6 Nas lendas dos Bororos, conta-se que os rios eram retos e sem nenhuma curvatura. Uma entidade poderosa considerava a linearidade muito monótona e pediu à serpente que se deitasse sobre os leitos. Os movimentos da serpente trouxeram impactos ambientais tremendos, mexendo a terra, causando assoreamento, trazendo desmoronamento e medo. Mas após o embate, vem sempre a reinvenção do amor: a tribo indígena observou a vida brotar em cada curva e a sinuosidade dos rios ofereceu a compreensão de que a vida não se estabelece em linha reta. A natureza se colore e seus avanços, recuos, idas e voltas oferecem uma dinâmica estética muito melhor do que a inabalável "sustentabilidade".
7 Referenciamo-nos aqui aos trabalhos de Tomaz Tadeu da Silva (1996), particularmente sobre o conceito que neles desenvolve, de diferenciação entre os autores pós-modernos (Jean-François Lyothard, Thomaz Popkewitz) e os antiestruturalistas (Jacques Derrida, Jean Beaudrillard e Michel Foucault), no que se refere à dissolução dos nítidos contornos da identidade moderna de homens e mulheres, cuja essência de humanidade é previamente definida, em favor de uma identidade flutuante e constituinte no movimento da afirmação e poder.
8 Desculpando-nos pela contradição, e não pela falha da direção teatral, desde que as coisas são incomparáveis exatamente porque são diversas...
9 GEERTZ, Clifford. Thick Description: Toward an Interpretative Theory of Culture. In C. Geertz, 1973, pp 87- 125 apud C. Geertz, C. Negara. O Estado teatro no século XIX, Lisboa: Dífel, 1991. p.VII.






Melhor visualizado em 800 x 600px e em IE atualizado. Horta Viva 2002/07 - www.hortaviva.com.br - Todos os direitos reservados.