POLENIZANDO

  As redes e o fim do patriarcado - Marcos Menezes

Marcos Menezes é fundador e facilitador da Rede Brasil de Comunicação Cidadã - RBC - (www.rbc.org.br).

1 INTRODUÇÃO As pessoas no mundo todo estão buscando cada vez mais interagir através de organizações horizontais de colaboração e que visam o bem comum. Para melhor compreender este fenômeno, podemos observa-lo como parte de um conjunto de transformações complexas e interligadas, em curso em todo o Planeta.

Vamos dar atenção especial aqui a um aspecto fundamental dessas mudanças que alguns estudiosos têm chamado de "agonia do patriarcado"1 , que teria relação com a recuperação de alguns aspectos das sociedades matriarcais.

Há 20 mil anos atrás, predominavam na humanidade comunidades chamadas matriarcais. As pessoas tinham uma integração mais profunda com a natureza, e as mulheres de modo geral regiam os grupos, que eram baseados na colaboração, na tolerância e nas trocas solidárias. Os instintos não eram reprimidos como ocorre hoje - devido ao advento da "civilização" e à cristalização de dogmas religiosos e culturais. Além disso, sabe-se que, psicologicamente (e mesmo fisiologicamente na estrutura cerebral) havia ênfase para os sentimentos, a intuição e a comunicação oral.

Nessas sociedades não existiam estruturas hierárquicas autoritárias ou disputas motivadas por acumulação ou competição. Ao contrário, as instituições eram coletivas e baseadas na partilha dos alimentos e bens.

"É o tempo das grandes deusas que inspiram organizações sociais marcadas pela cooperação, pela reverência em face da vida e dos seus mistérios. As mulheres detinham a hegemonia política: mediavam e solucionavam os conflitos e organizavam as sociedades. Eram responsáveis pelo bem comum do clã na vida e na morte. (...) A natureza não é vista como um meio a ser conquistado, mas como uma totalidade da qual cada ser humano é parte e parcela e com a qual deve viver em harmonia, no respeito e na veneração. As instituições do matriarcado, caracterizadas por grande força integradora, foram tão significativas que se transformaram em arquétipos e em valores e, como tais, deixaram incisões na memória genética até os dias de hoje."
Leonardo Boff2

"Pesquisas modernas sobre Matriarcado3 analisam e afetam todos os campos do conhecimento. Elas modificam nossa compreensão da história - que tem sido determinada pela visão patriarcal. E modificam nossa visão de mundo e da vida, e mesmo nossa pessoa como um todo."
Heide Göttner Abendroth4

Por razões que não cabe aqui analisar, a partir de 2000 a.C. aproximadamente, este modelo de vida baseado na colaboração foi sendo substituído pelos sistemas patriarcais. Os homens passaram a dominar as instituições e espaços públicos, instaurando a competitividade (as guerras), e as relações de dominação nos governos, igrejas, instituições de ensino, famílias.

Com o patriarcado (que ainda prevalece atualmente) ocorreu uma supervalorização do intelecto e do pensamento lógico-racional - em detrimento do corpo, dos instintos e emoções. Este fenômeno, apesar de ter contribuído para o desenvolvimento das ciências e dos avanços técnicos, foi crucial também para o estabelecimento no planeta de sistemas políticos e econômicos baseados na competição, no autoritarismo e na opressão. É também fator preponderante para a desconexão com a Natureza (que passa a ser vista meramente como matéria prima para a indústria). O que tem provocado agressões contínuas à Terra5.

"Como categoria de análise, o patriarcado não pode ser entendido apenas como dominação binário macho-fêmea, mas como uma complexa estrutura política piramidal de dominação e hierarquização, estrutura estratificada por gênero, raça, classe, religião e outras formas de dominação de uma parte sobre a outra. Essa dominação plurifacetada construiu relações de gênero altamente conflitivas e desumanizadoras para o homem e principalmente para a mulher."
Leonardo Boff6

"Buscando la causa de la falta de unidad entre los seres humanos y de la gran confusión en que se encuentra sumida la mayor parte de la humanidad, se critica como culpables a la Iglesia y al Estado, pero nunca se da el último paso: trasladar la responsabilidad al creador de tales instituciones, quien haciendo uso del poder se ha dado a sí mismo valor absoluto y se ha arrogado el derecho de vida o muerte sobre la familia, considerándola de su propiedad y apoderándose de sus bienes. Hora es de que no nos ocupemos solamente de los síntomas sino de la enfermedad como tal, reconociendo en el patriarcado el origen de nuestras imperfecciones y de la artificialidad de nuestra forma de vida".
Tótila Albert7

Como podemos constatar, este paradigma patriarcal está profundamente ligado com os modelos de organização autoritários e excessivamente hierarquizados, que ainda prevalecem no mundo8 . Tem relação também com a competitividade e com a agressividade entre os seres humanos9.

É importante enfatizar ainda que estas características não são exclusivas do sexo masculino, mas de todos seres humanos, mulheres e homens10 . E que não são apenas características abstratas dos sistemas econômicos, políticos e culturais. E isso é o mais complicado: são problemas que estão introjetados dentro de cada um de nós - como uma "praga emocional". Por isso é essencial que revoluções "moleculares" individuais e psicológicas sejam realizadas juntamente com as transformações sócio-culturais que as redes estão propondo.

"Esses são os obstáculos: as trevas da insensatez, da auto-afirmação, da luxúria, do ódio, do apego. A escuridão da insensatez é o campo dos outros... o fardo da sujeição ao sofrimento tem sua raiz nesses obstáculos."
(Patanjali, Livro II)

"Não é difícil conceber a noção de que todos fomos feridos e, talvez inconscientemente, martirizados pelo mundo durante a nossa infância, e dessa maneira nós nos tornamos um elo na transmissão do que Wilhelm Reich costumava chamar de uma "praga emocional" que infectava a sociedade como um todo."
Claudio Naranjo11.

"(...) Aqui cabe o engajamento e a introdução das revoluções moleculares no sentido que Felix Guattari lhes conferia, revoluções paradigmáticas que se iniciam nos sujeitos pessoais e em seguida se abrem às demais esferas da sociedade."
Rose Marie Muraro12

Tomando-se o enfraquecimento do patriarcado como um grande ponto de mutação atual da humanidade como um todo, pode ser muito enriquecedor tentar observar alguns movimentos contemporâneos sob este ponto de vista. Por exemplo: o crescimento dos ideais de ecologia e de cuidado com a Terra; a disseminação de diferentes filosofias e práticas de crescimento psico-espiritual e a busca pelo desenvolvimento integral do ser humano; os movimentos feministas e as reflexões sobre gênero e sexualidade; as alterações nas organizações familiares; as mudanças nas teorias pedagógicas; a articulação da sociedade civil para a construção participativa de um mundo melhor; as organizações em rede...

A partir dessas idéias, pode ser interessante observar estes paradigmas em relação uns com os outros. Enxerga-los no mundo exterior, nas instituições humanas, nas teorias. E, ao mesmo tempo, no nosso mundo interior: biológico, psicológico, espiritual, etc.

E cabe talvez colocar algumas questões:

Por exemplo, como perceber os aspectos problemáticos com relação aos sistemas patriarcais (tanto internamente na mente individual, quanto nas organizações sociais)?

E como podemos vencer estas limitações e melhorar nossas interlocuções e interações nas redes e nos movimentos sociais?

Como são perguntas muito ambiciosas; vou arriscar apenas algumas sugestões:

· Uma característica essencial para o bom funcionamento das redes é a qualidade dos diálogos (ou multílogos). Num bom diálogo, os interlocutores devem estar muito abertos e tranqüilos para escutar os outros e inclusive susceptíveis para reavaliar seus conceitos e opiniões13. O que é difícil para os "cabeças-duras" e para os "donos-da-verdade".

Para que as conversações sejam frutíferas, é preciso coragem e respeito para se expor e saber ouvir opiniões divergentes. É preciso também humildade e sabedoria para estar sempre testando e reavaliando idéias e valores.

"O amor à Verdade supõe a vontade de querer entender sempre o ponto de vista do adversário."
Gandhi

· Outro fator é que as interações em rede de modo geral visam o bem comum, do grupo ou de toda sociedade. O que poderia ser feito no caso de se identificar que uma pessoa integrante da rede tem motivações exclusivamente egoístas (por exemplo de lucro) ou que estejam prejudicando o coletivo?

"(...) Enquanto isso, o espaço entre a idéia e a atitude tem gerado a miséria humana. A palavra corre pelo governo humano sem espírito, sem cumprimento do que se diz. Pois palavra e espírito estão longe. A voz sai morta. Porém recheada de maquilagem para dar a impressão de vida. A palavra assina tratado de paz enquanto a mão acena guerra. A religião é surda, pois o espírito está mudo".
Kaka Wera Jecupe

Nesses casos, apontar diretamente o problema geralmente não ajuda e pode ainda gerar mais desentendimentos e enfraquecer todo o grupo14. O ideal talvez seja buscar, com solidariedade e criatividade, ajudar a pessoa para que ela perceba o problema e faça uma auto-reflexão (a questão pode estar relacionada por exemplo com alguma dificuldade familiar pessoal).

· Outra questão muito complexa e subliminar, relacionada ao tema do patriarcado, é a ampla disseminação por todo o planeta de valores capitalistas: como a ênfase na competitividade e na 'maximização da produtividade e do lucro' em detrimento do bem estar humano. Valores que vão sendo introjetados nas pessoas e acabam moldando inconscientemente nossa visão de mundo e nossas formas de pensar e de viver. E isso é tão sério que esses paradigmas nos parecem "naturais", a ponto de críticas ao capitalismo serem vistas como loucura!15

Absorvemos esses "valores" por vários motivos. Primeiro porque a idéia de estar num 'mundo altamente competitivo' é inculcada desde a infância através da família, da escola e mesmo de brincadeiras e jogos de competição e agressividade. Além da exposição massiva às mensagens da mídia corporativa, que prolifera a imagem do mundo como 'um grande mercado onde você deve se preparar para derrotar seus concorrentes e sair vitorioso'. Ideologia que, às vezes, contagia até as pessoas que atuam nas ongs e nos movimentos sociais.

"Todos nós nascemos originais e morremos cópias."
Jung

Durante a construção de redes, pode-se perceber como estes códigos psico-sociais, somados aos desentendimentos pessoais, prejudicam e enfraquecem uma atuação mais integrada das diferentes iniciativas da sociedade civil. Ocorre por exemplo quando cada grupo distinto acredita que um tipo de atuação específica é o mais importante e, com isso, não vêem que diferentes idéias e ações podem ser complementares. Uma boa solução nesses casos pode ser fomentar o diálogo e os encontros entre diferentes organizações. Assim pode ser mais fácil provocar o "insight" de que estamos todos trabalhando por uma grande missão comum: um mundo melhor, com mais dignidade e felicidade para as pessoas. E que diferenças nas perspectivas e nas prioridades de atuação não impedem a colaboração e podem até ser positivas.

"Modos de pensar criam maneiras de viver; Maneiras de viver inspiram modos de pensar."
Nietzsche

· Um campo que pode ser muito complicado também é o das questões conceituais. Por exemplo os casos em que as pessoas alimentam discussões teóricas improdutivas quando, na verdade, estão falando da mesma coisa com nomes diferentes. É claro que as reflexões conceituais são fundamentais para pensar e aprimorar as práticas. Mas é importante perceber quando a discussão está empacada num problema puramente conceitual. Nesses casos pode ser útil desenvolver uma meta-comunicação16 (discutir a comunicação em si) ou uma reflexão sobre a linguagem.

"A regeneração da Linguagem seria um nome não inadequado para o verdadeiro processo de Revolução"
Eugene Rosenstock-Huessy17

· Quebrar as rotinas e os procedimentos excessivamente burocráticos nas organizações também pode contribuir para "oxigenar" as redes. Por exemplo: organizar diferentes vivências em grupo, comemorações, atividades culturais, propostas de arte e criatividade, etc.

"Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece..."
Pablo Neruda

· Um ponto mais pessoal pode ser a prática da auto-observação, procurar conhecer a si mesmo, as motivações e dificuldades. Os caminhos são muitos e podem ser complementares: a psicologia e os grupos de terapia18 , a espiritualidade19 (que não precisa ter relação com dogmas religiosos), a prática de meditação20 , ou muitas outras atividades e filosofias de crescimento.

Talvez seja importante ter sempre em consideração que o ser humano é um projeto em constante construção e que podemos gradativamente mudar hábitos e pensamentos que não forem mais condizentes com nossa ética e nossos anseios. Isso pode significar na prática o enfrentamento das próprias limitações como: o medo, a timidez, o egoísmo, o orgulho, a raiva, etc...

E assim, as "revoluções" pessoais, psicológicas e espirituais, poderão transbordar para as diferentes organizações, para as redes... e destas para todo o planeta.

"O mais importante e bonito do mundo é que as pessoas não são sempre iguais. Não foram terminadas mas estão sempre mudando afinando e desafinando. Verdade maior que a vida nos ensinou."
Guimarães Rosa


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1 veja por exemplo "La agonia del patriarcado" de Claudio Naranjo, editora Kairos / ou ouça entrevista com Claudio Naranjo através da página: http://www.angu.net/naranjo.htm
2 Muraro, R. M. e Boff, Leonardo, Feminino e masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças, Rio de Janeiro: Sextante, 2002
3 veja alguns textos interessantes em http://promatriarchy.net/
4 http://www.goettner-abendroth.de/englisch.htm
5 veja por exemplo: http://www.feijao.org/gaia.htm
6 Muraro, R. M. e Boff, Leonardo, Feminino e masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças, Rio de Janeiro: Sextante, 2002
7 extraído da página: http://www.concienciasinfronteras.com/PAGINAS/CONCIENCIA/tresamores.html
8 veja as diferentes reflexões de E. Schüsser-Fiorenza: "O patriarcado:pirâmide de opressões multiplicativas", em Pero ella dijo, Madri: Editorial Trota, 1996, pp. 151-159.
9 veja por exemplo: http://www.feijao.org/monos.htm
10 veja mais em http://www.feijao.org/patriarcado.htm
11 extraído o livro "Os nove tipos de personalidade - Um estudo do caráter humano através do eneagrama" de Claudio Naranjo, p. 46, editora Objetiva 1996.
12 veja por exemplo: "A revolução molecular" de Félix Guattari, editora Brasiliense, 1980.
13 sobre isso veja por exemplo as crônicas: "Escutatória" e "Se eu fosse você..." do livro "O amor que acende a lua" de Rubem Alves, editora Papirus 1999
14 sugestões de leitura: "Constelações Familiares" e "A simetria oculta do amor" de Bert Hellinger, editora Cultrix.
15 sobre o Profeta Gentileza: http://www.feijao.org/GentilezageraGentileza.htm
16 sugestão: "Pragmática da Comunicação Humana" de Paul Watzlawick, J. Beavin e Don D. Jackson, editora Cultrix.
17 veja também http://www.rbc.org.br/guerrasemiotica.htm
18 http://www.feijao.org/psi.htm
19 http://www.feijao.org/espiritu.htm
20 http://www.feijao.org/medita.htm


FONTE: http://www.rits.org.br/redes_teste/rd_tmes_nov2002.cfm





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