POLENIZANDO

  A destruição da natureza brasileira em números - Arthur Soffiati

Arthur Soffiati é professor do Instituto de Ciências da Sociedade e
Desenvolvimento Regional/UFF e Doutor em História.

Trinta e cinco anos de lutas em defesa do meio ambiente no Brasil trouxeram resultados pífios. Sociedade, governo e empresários continuam muito aquém do necessário para inverter a destruição do meio ambiente de índices positivos para índices negativos. Só neste ano da graça de 2005, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou sua primeira pesquisa específica sobre o estado do meio ambiente no Brasil. A investigação, realizada em 2002, entrevistou gestores públicos de 5.560 municípios e se intitula "Perfil dos Municípios Brasileiros - Meio Ambiente 2000".

Cabe salientar, logo de cara, que se trata de um levantamento quantitativo, confiando nos administradores públicos, normalmente nada confiáveis, pois que não querem fazer revelações que comprometam a imagem do município e também não têm a mínima sensibilidade para perceber o que ocorre diante de seu nariz. Feitas estas ressalvas, a pesquisa mostrou que:

· O maior problema ambiental reconhecido pelos municípios é o assoreamento de rios, lagos e açudes, com 53% do total. Os gestores atribuem-no à supressão da mata ciliar (70%), ao desmatamento mais amplo (67%) e à erosão e deslizamento de encostas (56%). As soluções apontadas pelos administradores são a recomposição da vegetação nativa (37%), a dragagem e limpeza de canais (37%) e o combate à erosão (35%). O campeão brasileiro em assoreamento é o Estado do Espírito Santo, com 88% em relação aos outros problemas. Faz sentido, pois o Espírito Santo quase acabou com a Mata Atlântica em seu território, gerando um baile de erosão.

· Alterações ambientais com efeitos sobre a qualidade de vida ocupam o segundo lugar da lista, com 41% do total. Segundo as respostas, os principais problemas a concorrerem para este estado são o esgoto a céu aberto (46%), o desmatamento (45%) e as queimadas (42%). É de se notar que, qualitativamente, o fogo e a queima de combustíveis fósseis representam uma grande queixa por parte da população, e a zona açucareira do norte-noroeste fluminense conhece bem o problema.

Em suma, continuam botando fogo no Brasil. Como soluções, as autoridades municipais propõem o controle de vetores de doenças (70%), a ampliação do abastecimento d'água (53%) e a educação (53%). Pernambuco está na liderança com 82%.

· A poluição da água ficou em terceiro lugar, apontando-se para ela o despejo de esgoto doméstico (75%), o uso de agrotóxicos e fertilizantes (42%) e a criação de animais (39%). As soluções apontadas pelos governos municipais são a ampliação da rede de esgoto (52%), a fiscalização do despejo de resíduos domésticos (51%) e o controle da ocupação urbana (40%). O campeoníssimo é o Estado do Rio de Janeiro, com 77% em relação ao total dos problemas. Isto significa que, em termos de falta de saneamento, o Rio de Janeiro está no degrau mais alto do pódio. A confiar na pesquisa, devemos desconfiar dos governos do Estado e municipais.

· Em quarto lugar vêm as alterações que afetam negativamente a paisagem por conta da erosão (35%), da ocupação irregular do solo (33%) e de empreendimentos imobiliários (28%). Para corrigi-las propõem-se o controle da ocupação urbana (38%), o controle do desmatamento (36%) e a recomposição da vegetação (35%). Neste tópico, a corrida foi vencida pelo Amapá, com 81%.

· A contaminação do solo ocupa o quinto lugar na escala de problemas, e os fatores apontados para ela são o uso de fertilizantes e agrotóxicos (63%), a destinação inadequada de esgoto doméstico (6%) e o chorume (38%). Para combatê-la, o poder público municipal entende ser necessário fiscalizar o despejo de resíduos domésticos (51%), implantar aterros sanitários (40%) e fiscalizar a contaminação oriunda de animais (36%). Novamente, o Espírito Santo aparece no mapa, respondendo com 64%. Principalmente o uso de insumos químicos na lavoura, considerado o mais grave problema neste item, liga-se ao grande desmatamento que sofreu o Espírito Santo, reduzindo as formações vegetais nativas a uma poeira. Este desmatamento visou a abertura de terras para lavouras e pastos com um grande uso de fertilizantes químicos e de agrotóxicos.

· A poluição do ar vem em sexto lugar, causada, primeiramente, por queimadas (64%), vias não pavimentadas (41%) e atividade industrial (38%). As soluções apontadas são o controle das queimadas (28%), a fiscalização de atividades extrativistas (27%) e a fiscalização de atividades industriais (21%). A liderança está com o Amapá, que aparece pela segunda vez na pesquisa, com 63%. A relação entre queimada e poluição do ar é direta. Já a atividade industrial aparece meio deslocada, pois o Estado não é industrializado. A menos que consideremos uma liberdade de funcionamento muito grande para as poucas indústrias implantadas no Amapá.

· Por fim, aparece a degradação de áreas protegidas pelo desmatamento (69%), pelas queimadas (51%) e pela caça de animais silvestres (38%). As propostas apontadas para atacar os problemas são o combate ao despejo de resíduos domésticos (50%), o controle da ocupação urbana (43%) e a recomposição da vegetação nativa (42%). Mais uma vez, o Amapá figura na pesquisa ocupando o primeiro lugar com 56%, o Estado mais degradador do meio ambiente.


A destruição da natureza brasileira em números II

Ainda vigora a concepção segundo a qual meio ambiente, desenvolvimento econômico e desenvolvimento social são incompatíveis. Melhor dizendo, não se pode proteger o meio ambiente e, ao mesmo tempo, promover o desenvolvimento econômico e social, pois os três colidem. Então, diante deste conflito, a proteção do meio ambiente aparece como a grande vilã a impedir o progresso.

Mas, confiando na pesquisa Perfil dos Municípios Brasileiros - Meio Ambiente 2002, lançada recentemente pelo IBGE, delineia-se um outro quadro. Nota-se que a destruição do meio ambiente acarreta danos profundos à economia e à sociedade. E o lamentável é que a economia e a sociedade destroem o meio ambiente, produzindo uma espécie de efeito bumerangue.

De acordo com a pesquisa, a atividade econômica que mais sofreu com a degradação ambiental foi a agricultura, atingindo 34% dos 5.560 municípios entrevistados. Os estados mais afetados foram Pernambuco (73,5% dos municípios) e Espírito Santo (69,7% dos municípios). Quanto à pecuária, 23,7% dos municípios brasileiros foram prejudicados. A maior parte dos municípios em que a pecuária foi afetada por problemas ambientais fica em Roraima (53%) e Pernambuco (44%). Os prejuízos à pesca atingiram 18,5% dos municípios. Eles se apresentam mais graves na região norte, com o percentual de 73% dos municípios. É enganoso, por este dado, continuar pensando que a Amazônia é o maior celeiro de peixes do Brasil. Se for ele está bastante ameaçado.

Tudo faz sentido, embora a pesquisa não tenha a confiabilidade esperada. A agropecuária desmata para ampliar fronteiras econômicas e deixa o solo exposto às intempéries. A agricultura é praticada em terrenos impróprios e com tecnologia agressiva. O gado pasta em encostas. Tudo isto provoca erosão e empobrecimento da fertilidade do solo. Ambos se voltam sobre as duas atividades e acabam por inviabilizá-las ou gerar rendimentos decrescente. Os agrotóxicos afetam o trabalhador e o consumidor. E mais: as nascentes, os rios e as lagoas começam a secar. A falta d'água é o maior problema a assolar a agropecuária e a pesca, segundo gestores de 72% dos municípios.

O esgoto urbano e os despejos industriais alteram os ambientes aquáticos, afetando a atividade pesqueira, tanto em águas continentais como em águas marinhas. E os organismos aquáticos extraídos de seus ambientes ainda são responsáveis por expressiva parte da alimentação mundial, notadamente das camadas pobres. Todavia, a pesca predatória foi detectada como a grande responsável pelos problemas que atingem a atividade, matando a galinha dos ovos de ouro.

No que concerne à qualidade de vida e à saúde, a falta de saneamento atinge índices bastante altos. A maior proporção de municípios vitimados pela poluição fica nas regiões sul (45%) e Sudeste (43%). A contaminação do solo também é um grande problema no sul (50%) e no Sudeste (34%). Os causadores principais são a urbanização e a industrialização. Se, nos municípios da zona rural, as queimadas são as maiores responsáveis pela poluição do ar, nas cidades com mais de 500 mil habitantes, os geradores de fumaça e partículas são os veículos automotores e as fábricas.

Os números aqui são eloqüentes e quebram aquela idéia generalizada e profundamente arraigada na sociedade, nos empresários e nos governantes de que grandes cidades com muitos veículos circulando e indústria são sinônimos de desenvolvimento. Quando a gente pergunta a uma pessoa comum o que um governo pode fazer para promover o desenvolvimento, a resposta é imediata: trazer indústrias para o município. Pois aí está: as regiões consideradas mais desenvolvidas do Brasil são as mais poluídas. Há um consenso quanto à contribuição do petróleo na poluição das águas marinhas. Basta ver o caso dos Estados do Rio de Janeiro, com 77% dos municípios afetados, e do Espírito Santo, com 60%.

A conclusão maior que posso tirar desta pesquisa é que os modelos de desenvolvimento nascidos da revolução industrial, nas suas vertentes capitalista e socialista, são contra-naturais. As grandes plantas agropecuárias, industriais e urbanas são insustentáveis do ponto de vista sócio-ambiental. A mantê-las, podemos divisar dois horizontes. O primeiro deixa o sistema funcionar a todo vapor. Neste caso, ele vai usar uma moto-serra para cortar as pernas da cadeira em que está sentado. No segundo horizonte, o sistema procura amenizar os impactos ambientais mediante aterros sanitários, usinas de reciclagem, estações de tratamento e filtros contra gases. Neste caso, as pernas da cadeira serão cortadas com uma serra manual. Nas duas situações, o sistema vai ruir. É só uma questão de tempo. Mais do que nunca, acredito que a saída seja construir uma outra civilização, mas esta convicção parece a muitos uma grande utopia.

Fonte: Jornal Folha da Manhã, Campos dos Goytacazes, RJ.






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