POLENIZANDO

  E a Educação Ambiental frente às mudanças climáticas: organizar ou desorganizar? - Fábio Deboni

Ponto de Partida

Presenciamos um momento repleto de estudos, relatórios e informações mais consolidadas a respeito do aquecimento global e das mudanças climáticas. A velha máxima do "nunca se falou tanto sobre meio ambiente, mas nunca se degradou tanto" continua válida, mas de fato, de uns tempos pra cá tem se falado coisas cada vez mais embasadas técnica e cientificamente. Enquanto nós, ambientalistas já levantávamos essas questões há algum tempo, elas passaram a ganhar maior importância mais recentemente, a partir da divulgação de alguns estudos, relatórios e trabalhos. São eles:

· Vigência do Protocolo de Kyoto [1], a partir de 2005 com a entrada da Rússia, inicia um novo ciclo de medidas, instrumentos e mecanismos para os países que aderiram ao Protocolo. Um ponto polêmico é o MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo), por meio do qual, países industrializados podem, ao invés de reduzir emissões, investir em projetos de seqüestro de carbono em países em desenvolvimento;
· Stern[2], economista, publicou no final de 2006 um Relatório detalhado sobre as mudanças climáticas, apontando dentre outras coisas que caso medidas não sejam adotadas, poderá haver recessão de 20% do PIB mundial num futuro próximo. Talvez seja o primeiro estudo que aponta claramente os impactos econômicos do aquecimento global. O estudo foi encomendado pelo governo britânico;
· Vídeo de Al Gore, Uma verdade incoveniente [3], com dados e uma boa dose didática mostra a evolução do aquecimento global, suas causas e consequências. Apesar do caráter auto-promocional, tem sido, sem dúvida, um provocador do debate sobre o tema na atualidade.
· Divulgação do Relatório do IPCC - Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas [4], da ONU, com série histórica de dados, embasamento técnico e científico, etc. Trata-se de um estudo bastante completo e amplo sobre o tema.

Essas quatro referências recentes constituem-se em inegáveis marcos técnicos e científicos para a questão das mudanças climáticas e do aquecimento global. Elas têm conquistado importante espaço nos meios de comunicação, e têm contribuído para projetar a questão de forma mais massiva na sociedade mundial. Mas o que elas trazem de novo que causam tanto impacto mundial?

De fato, estas referências têm méritos relevantes, fruto de um maior embasamento teórico, técnico, científico; decorrentes de uma escala mais ampla de medições históricas (séries históricas de dados sobre o clima); apontam consequências do aquecimento global visíveis na atualidade, etc. Há muitos méritos nestes estudos que projetam maior densidade a esta agenda global.

Isso vem sendo presenciado também pela cobertura nos meios de comunicação, cada vez mais informando a respeito do tema - TV (globo), internet, jornais, revistas, cinema, etc... O assunto virou até conversa cotidiana de personagens de novela, em programas de TV, etc. De fato, temos observado uma maior popularização da questão.

Mas, afinal, como os meios de comunicação têm abordado o tema? Há uma análise profunda ou apenas um caráter informativo pontual?

Do ponto de vista teórico-conceitual, a abordagem, de um modo geral, tem sido boa. Programas como o Fantástico, têm abordado o tema e procurado apresentá-lo de forma didática e menos parcial. A exposição do tema tem sido interessante. Já quanto à sua análise, observa-se que ela é parcial e superficial em muitos casos. Não se procura fazer uma análise mais profunda, identificando as causas do problema, sua complexidade, seus meandros políticos e econômicos e suas conseqüências. Neste aspecto, de análise, a abordagem dos meios de comunicação, em geral, deixa a desejar.

Já no quesito "enfrentamento", a situação é ainda pior. Se a análise do tema é parcial, as possibilidades de enfrentamento são ainda mais superficiais. Os meios de comunicação exploram pouco as diversas possibilidades de enfrentamento do tema, nas suas diferentes dimensões (culturais, econômicas, políticas, sociais, ambientais, éticas, etc.). Quando o fazem, restringem-se a alternativas puramente tecnológicas e mercadológicas, partindo do princípio de que essas duas dimensões conseguirão reverter o problema. Decorrem daí abordagens pouco críticas, que não questionam o atual modelo de produção e consumo, a relação desigual entre países, não procura identificar as reais raízes do problema, etc. É claro que isso é feito de forma planejada, na medida em que se vislumbra um mercado global de carbono (e até mesmo ambiental) emergente e poderoso. Enfim, milhares e milhares de dólares serão injetados em projetos ambientais nos próximos anos. Dinheiro de que procedência?

E a EA frente a tudo isso?

Como educadores (as) ambientais que somos, precisamos perceber o momento atual como uma grande oportunidade de promovermos debates e reflexões político pedagógicas sobre o tema, gerando possibilidades efetivas de enfrentamento.
Estamos falando, portanto, de reflexões pedagógicas, na medida em que devemos procurar conhecer com mais profundidade o problema, suas causas e conseqüências, construir materiais e instrumentos pedagógicos para que mais pessoas possam compreendê-lo, etc.

Estamos falando também de construções políticas, começando pela "nossa parte" nesta história, revendo valores e atitudes; mobilizando diferentes setores da sociedade; construindo políticas públicas; pressionando governos, empresas; participando e potencializando espaços políticos (fóruns, conselhos, audiências, etc); construindo alternativas concretas de enfrentamento do problema, etc.

São inúmeros os caminhos a serem construídos para o enfrentamento políticopedagógico do tema. Nós, educadores(as) ambientais precisamos perceber que se trata de um tema com imenso potencial aglutinador de esforços mundiais; saber utilizá-lo politicamente como uma grande agenda de transformação e pedagogicamente como um belo tema gerador.

A EA tem procurado se debruçar sobre inúmeros temas socioambientais ao longo da sua história, promovendo reflexões, elaborando e disseminando materiais e informação, potencializando articulações de pessoas e organizações, implementando ações e transformações. O momento atual é bastante grave e complexo, e o tema das Mudanças Climáticas já ganhou a agenda internacional. Não está somente na roda de ambientalistas e simpatizantes do "verde", mas vem penetrando nas agendas política e econômica com força e aí deve permanecer nos próximos anos e décadas.

O tratamento que será dado, entretanto, pode ser bastante variado e, como vimos com a mídia, tende a ser simplificado, parcial e a acrítico. Portanto, os desafios são inúmeros para a EA.

Desafios a frente

A EA (e nós educadores(as)) nos deparamos com uma situação tão potencialmente interessante de ser trabalhada/discutida quanto seriamente preocupante e grave para a permanência da vida (humana e não humana) no planeta. Alguns desafios são nítidos para nossa inserção e atuação no momento atual:

· Necessidade de aprofundamento teórico-conceitual sobre o tema: não basta apenas repetirmos o que ouvimos falar sobre o assunto ou o que vimos num programa na TV, precisamos de profundidade para explorarmos o tema na complexidade que ele exige. Hoje a informação está disponível com mais facilidade do que tempos atrás, e necessitamos saber buscá-la, filtrá-la e organizá-la para nossa aplicação como educadores(as) ambientais em nossas mais diversas atividades e situações.
· Urgência em questionarmos e discutirmos abordagens pragmáticas do tema: identificando os interesses por trás destas visões, propondo outras alternativas além destas, enxergando outros caminhos possíveis e até mesmo (im)possíveis no momento.
· Demanda por ampliar articulação de parceiros, somando esforços e organizando ações coletivas para o enfrentamento do problema: isso pode gerar uma espécie de pacto mundial (nacional, regional) de ação, a partir dos esforços, potencialidades e contribuições que a EA (brasileira, latinoamericana, mundial) pode aportar.
Enunciados estes desafios, paremos para pensar:
· A EA brasileira tem contribuído para enfrentar este problema? Como?
· Em que materiais, projetos, eventos e ações de EA que conhecemos o tema das Mudanças Climáticas está presente e é trabalhado de forma profunda e complexa? O que há de interessante? O que falta? O que deve ser melhorado?
· O tema está entre os mais presentes na agenda da EA brasileira na atualidade? Ou ele é apenas mais um tema dentre outros?
· Seria possível estimar o volume de investimentos alocados em projetos de EA que trabalham este tema? É um montante efetivo ou irrisório?
· Há massa crítica na EA brasileira para abordar o tema? Onde?
· O que cada um dos setores está fazendo pelo tema: redes, coletivos, movimentos, associações, sindicatos, ONGs, eventos, CEAs, NEAs, escolas, universidades, centros de pesquisa, governos, empresas, mídia, etc. E cada um de nós, como eleitores, consumidores, cidadãos que somos, o que estamos e podemos fazer?

Realmente há muito a fazer, inúmeros caminhos a construir e pouco tempo para tantas transformações urgentes e necessárias. O problema vem se agravando, dando sinais de que o futuro já é o presente e de que a questão é bem mais grave do que se imaginava até então. Para seu enfrentamento, precisamos de posicionamento político, de estratégias pedagógicas e de esforços concentrados e articulados. Precisamos sair do gueto, atingir a grande massa, popularizar essas reflexões acerca do tema para além do nosso círculo de educadores(as) ambientais e simpatizantes, inseri-lo na agenda política principal, dialogar e apresentar argumentos econômicos e técnicos, enfim, precisamos de (auto)superação. A EA necessita superar-se de lacunas, barreiras e dificuldades que têm se deparado ao longo da sua história, ao mesmo tempo que precisa apresentar-se como uma das ferramentas de superação destes problemas.

E então, vamos continuar assistindo ou vamos embarcar no tema? Afinal, o clima está esquentando e não há tanta lenha assim para queimar.


Fábio Deboni é educador Ambiental. Órgão Gestor da Política Nacional de Educação Ambiental

Fonte: http://www.adital.org.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=26284






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