POLENIZANDO

  Nem tudo foi dito - Manoel Francisco Brito

Num texto em que a discussão sobre como qualificar a responsabilidade humana no aquecimento global – se extremamente provável ou apenas provável – levou 5 horas, era de se esperar que o tom de sua edição final acabasse suavizado por um excesso de cautela política e diplomática. Mas uma reportagem na edição da revista New Scientist que começa a circular no sábado, 10 de fevereiro, diz que a diplomacia foi mais longe. Invocou o rigor científico para cortar da versão final do relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, conhecido pela sua sigla em inglês, IPCC, uma série de descobertas recentes em relação às conseqüências do efeito estufa.

O argumento utilizado pelos diplomatas que trabalharam na revisão do estudo do IPCC para jogar estas informações no lixo, que por coincidência, segundo a revista, apontavam para cenários bem mais assustadores sobre o desequilíbrio no clima, foi a de que elas ainda não estavam inteiramente quantificadas e tampouco incorporadas aos modelos climáticos. “Qualquer coisa qualitativa foi deixada de fora”, disse um dos redatores do relatório,Venkatchalam Ramaswamy, da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), órgão do governo americano.

O que não significa que estas pesquisas não pudessem ser cientificamente aceitas. Elas trazem evidências sobre a existência de uma série de novos catalisadores potenciais do aquecimento global e de pontos de ruptura que tornariam ações mitigadoras talvez inócuas. A lista dos cortes inclui pesquisa que indica que a corrente do Golfo do México tende à inércia, estudos sobre a aceleração do derretimento do gelo na Antártica e Groenlândia e alertas sobre a possibilidade de que volumes de metano e CO2 que hoje estão sob o solo e o fundo do mar correm o risco de ser liberados e chegar à atmosfera.

O IPCC, por exemplo, ignorou trabalho recente de cientistas, patrocinado pelo governo inglês, indicando que a possibilidade de placas de gelo na Groenlândia se soltarem de repente, ao invés de derreterem lentamente, é real. Se isto acontecer, a subida no nível dos oceanos não apenas se dará de forma mais acelerada. Ela será mais radical, ultrapassando em muito o nível de 59 centímetros que o IPCC previu para o fim deste século. Foi a mesma conclusão de uma pesquisa publicada na semana passada por Stefan Rahmstorf do Potsdam Institute for Climate Research , da Alemanha, e Jim Hansen, do Laboratório Goddard , da Nasa.

Grau da encrenca

Ela mostra que o nível do mar sobe 50% mais rápido do que os atuais modelos climáticos prevêem e que a extensão do aumento, até o fim do século, tem tudo para bater nos 88 centímetros. Hansen admitiu que o estudo ainda não tem todos os dados necessários para ser incluído nos modelos que tentam prever a evolução futura do clima e foi essa a razão pela qual, no relatório, a previsão de subida do mar ficou em 59 centímetros. Pela mesma razão, o relatório do IPCC escanteou as análises da equipe do British Antarctic Survey apontando que os termômetros ao redor do mundo estão subindo mais rápido do que se previa e que a Antártica está perdendo massa de gelo.

Nesse caso, ao invés de cautela, o relatório do IPCC pode bem ser acusado de ir na contramão das evidências científicas. Seu texto preferiu dizer que graças a um aumento na precipitação de neve, a massa de gelo do continente está em franco crescimento. Os pesquisadores do National Oceanography Centre da Inglaterra lamentaram que suas descobertas sobre o que anda acontecendo com a corrente do Golfo do México, que influencia o clima em várias partes do globo, também tenham sido esquecidas.

Elas mostram que sua velocidade caiu 30% entre 1957 e 2004 e que a tendência dela, portanto, é chegar à inércia. O fato de que tanta novidade científica sobre o clima, como mostra a New Scientist, ficou fora do texto final do IPCC, não diminui a importância e o impacto político do relatório. Mas deixa claro que o distinto público do planeta ainda não está inteiramente informado sobre o tamanho da encrenca que o aquecimento global anda cozinhando para seu futuro.

Manoel Francisco Brito
Jornalista, foi editor-executivo do Jornal do Brasil e da revista Veja e diretor-geral do site OECO.
kbrito@oeco.com.br - www.oeco.com.br






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