POLENIZANDO

  MULHERES, PODER E DESENVOLVIMENTO

O Dia Internacional da Mulher, comemorado no dia 8 de março, nos convida a uma reflexão que nos últimos anos tem assumido um caráter mais amplo, extrapolando, inclusive, a luta por alguns direitos.

A exemplo de outros países e numa retrospectiva histórica, percebe-se que os direitos políticos e a cidadania da mulher brasileira em geral tornam-se efetivos na medida em que a mulher adquire poder social, sustentado pela educação e capacitação, permitindo-a não só usufruir dos direitos em seu próprio benefício, como promover os direitos da sociedade em geral.

Diante das experiências e conquistas do Terceiro Setor no Brasil (ONGs e fundações privadas), torna-se necessário deitar um novo olhar sobre o conceito de poder e, mais, sobre as formas de se possibilitar às mulheres o acesso ao poder - por em prática o conceito de "empowerment", empoderamento das mulheres, lançado pela Plataforma de Ação da Quarta Conferência Mundial da Mulher, realizada em 1995, em Pequim.

Numa retrospectiva analítica, é possível perceber a evolução do pensamento com respeito ao desenvolvimento da mulher. Nos anos 60, a preocupação volta-se mais ao aspecto "bem estar", mas de lá para cá as expectativas evidenciadas nos programas e projetos desenvolvidos demonstram preocupação com a autosuficiência, a igualdade e o empoderamento.

A questão que se impõe é que, de receptora de benefícios, a mulher a cada dia, tem se colocado numa posição de conquistar e promover de justiça social. O empoderamento reforça a ação coletiva no reconhecimento e superação dos problemas que resultam da discriminação por gênero.

Cumprindo o compromisso assumido há um ano, também na comemoração do dia 8 de março, a UNESCO realizou, durante o ano de 1997, pesquisas sobre gênero e poder. Os resultados começam a ser publicados. Recentemente, foi editado o livro "Gênero e Meio Ambiente" e um outro, sobre experiências de mulheres que atuam em bases comunitárias, nos meios urbano e rural, será lançado nos próximos meses.

As pesquisas demonstram e divulgam a importância da atuação da mulher e sua capacidade de superação e liderança em grupos de base, em localidades rurais e em associações de moradores. Ao equacionarem economia e cultura, revelam a plasticidade do conceito de poder, quando este é posto em movimento ou concebido não como algo dado, mas um processo de conquistas, no qual até o que se concebe como poder é redefinido.

Mulheres e homens, em organizações de ação direta em setores populares, estão fazendo diferença no trabalho voltado à educação alternativa, no resgate da arte e da cultura, pelo crescimento da auto-estima entre os jovens e pelos direitos à cidadania desses grupos. Nas comunidades atuam em associações de moradores, introduzindo agenda antes só acionada por ONGs de corte feminista - que continuam também a ter um papel muito importante, inclusive por contatos e trabalhos com as mulheres em ações comunitárias e movimentos sociais.

Congratulo-me, assim, com todas as mulheres que pela capacidade de organização e denúncia, reivindicam a construção de um outro paradigma de relações de poder entre homens, mulheres e meio ambiente. A UNESCO acredita na materialização dessa utopia, o que certamente pode reverter o atual contexto de exclusões e injustiças, caminhando todos, homens e mulheres, para uma Cultura da Paz.

* Jorge Werthein, 56 anos, sociólogo argentino, doutor em Educação pela Universidade de Stanford (E.U.A), é representante da UNESCO no Brasil e coordenador do programa UNESCO/Mercosul.

Fonte: http://www.brasilia.unesco.org/noticias/opiniao/artigow/1998/artigowm

Artigo publicado no Correio Braziliense






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